Do livro Tansparencias Impenetraveis, de Atila Almeida.
as
transparência
impenetráveis
Átila Augusto Freitas de Almeida
À GUISA DO PREFÁCIO
Estes caprichos (de meu pai? padrasto?) não poderiam vir a lume sem uma explicação. (Durante toda minha vida chamei A. Lopes Dantas de Oliveira de papai, e agora não sei referir-me a ele como meu padrasto). Uma explicação apenas, não; várias! A primeira... Perco-me no universo caótico de idéias que os fatos suscitam ou no mundo de fatos que as idéias sugerem? Não há primeira, há explicações. Para começar, devo dizer que os caprichos que há anos conservo e durante algum tempo foram fonte de alguma angústia, não devessem ser publicados como recomendou Jorge Guedes Barreto (J.G.B.) na carta que me dirigiu devolvendo originais que, segundo ele, meu pai lhe entregara pessoalmente e, consoante cópia de carta de meu pai, foram-lhe remetidos, se pelo correio ou portador, ignoro. Eis o teor da carta: “Caro amigo Barreto, Rogo-lhe seu aval literário nessas letras que intitulei Caprichos em Eu Menor, e pretendo publicar. Não lhe peço o sacrifício de lê-los, nem isso é necessário para que você faça a apresentação, à semelhança das que fez nos livros de... Nomes! Mas o seu é o abre-te sésamo que remove pedras, escancara a boca da caverna literária para onde entraram... Não me tome pelo quadragésimo-primeiro, ponha-me entre os quarenta. Sempre confiante, seu, Dantas.” Os termos dessa carta sugerem a existência entre os dois de intimidade que eu e minha mãe desconhecíamos. Conhecidos, sabíamos, eram. Se nos causava espanto a revelação de semelhante intimidade, maior ainda nos proporcionava o episódio das promissórias, inicialmente revelado por cópia da carta que J.G.B. me remetia dizendo tê-la enviado a meu pai e não ter dela recebido respostas. Não encontrei o original da carta, cujos termos teriam sido estes: “Prezado Dantas: Você deve estar bem lembrado do pacote de promissórias que lhe mostrei dizendo-lhe que seus avais eram fundos que você tinha comigo, a seu crédito, para pedir-me quantos prefácios quisesse. Pois bem, desapareceram misteriosamente. Lembro-me que você, ao retirar os originais de sua pasta, esvaziou-a sobre a mesa onde estava o pacote de promissórias. É razoável supor que, ao rearrumar a pasta, você tenha, por equívoco, metido nela o tal pacote. Escrevo-lhe para saber se realmente isso aconteceu. As promissórias são documentos mortos em minhas mãos, e nas suas enquanto você viver, mas, sejamos sensatos, somos morais. Se (Deus nos livre!) você desaparecesse e elas fossem encontradas entre seus pertences, eu ficaria como devedor inadimplente... Bem, não precisa mais do que meia palavra para bom entendedor! Se aconteceu o que supus, não tenho dúvidas de que logo elas estarão novamente comigo. Do amigo grato, Barreto.” Foi rasgado papel velho que dei com as promissórias no fundo de uma gaveta. No envelope em que estavam metidas, lia-se a anotação reticente: “Para devolver a Barreto quando... Quando? O achado explodiu, fragmentou-se em hipóteses: Teria sido J.G.B inadimplente durante toda sua vida? Teria meu pai metido todas as promissórias na pasta por inadivertência? Chantagem? De quem? O preço da devolução seria o prefácio? Ou o reembolso e o prefácio como juro? As dúvidas que me assaltaram refrearam meu impulso de remeter o pacote para J.G.B. Pelo que eu conhecia meu pai, tinha certeza que ele devolveria as promissórias mal tivesse recebido a carta cobrando-as. Mas dúvidas insidiosas penetraram meu espírito depois de ler e reler a carta que J.G.B. me dirigiu devolvendo os originais. Ei-la: “Prezado Sr. F.J. Torres: Juntamente com esta estou lhe remetendo originais deixados em meu poder por seu falecido padrasto, bem como cópia de carta que escrevi a ele e ficou sem resposta. A publicação dos originais de seu padrasto não se recomenda por vários motivos, alguns deles literários... Não seria de bom alvitre levantar dúvidas quanto a imagem que ele laboriosamente construiu, de funcionário exemplar, bom chefe de família, amigo leal. Fico, porém sem entender as razões que o levaram a fazer incursão por área alheia, onde seu andar duro, sem meneios, deixa impressão desagradável. É preciso convir que a vocação de Dantas era realmente a de guarda-livros com que se iniciou na firma de seu pai, José Torres, da qual foi sócio minoritário e, depois de um ano da morte súbita de Torres, sócio majoritário, em consequência de núpcias contraídas com a viúva do ex-sócio e protetor, sua mãe. Não estanhe meu conhecimento de certos fatos, porque conheci seu padrasto na escola primária, onde eu lhe retocava as redações; demais, vivemos em meio pequeno, onde tudo se sabe... Dessa amizade infantil e da ajuda que sempre lhe prestei nos estudos, ele extraiu o dever de gratidão que pretendei pagar-me oferecendo-se para meu avalista. Nossa transação não eram bancárias, e sim feitas com agiota que fora nosso companheiro de meninice. Quanto aos caprichos que ele ora queria que fossem histórias, outras vezes embrião de romance, a meu ver não passam de confissões(quase digo cropológicas) disfarçadas, que não devem ser oferecidas à decodificação de alguns curiosos que possuem dados para executar essa tarefa... Do ponto de vista literário, eu os classificaria como crônicas memorialísticas, em geral de gosto duvidoso, nas quais fatos inconfessáveis são atribuídos a personagens inventados e sem vigor. Se, em vida, Dantas tivesse colocado a matéria subjacentes às crônicas nos ouvidos de um psicanalista, outro talvez teria sido o fim dele... ou seu princípio! Tome meu conselho e jogue-os ao fogo, pois se o Sr. for esgravatar o segredo de certos Caprichos, terminará sem saber se foi ou não foi! Nada mais doloroso do que a dúvida. Bem, deixo-o com sua consciência, aconselhando-o mais uma vez a não estragar sua vida fazendo-se um desses caçadores obsessivos de verdade. Não conhecê-las todas, mesmo intencionalmente, não é mentir, é sobreviver! Não existe vida em comum sem um pouco de mentira. Aguardando a devolução do pacote de promissória(caso seu padrasto não o tenha destruído também...), firma-se, atenciosamente, Jorge Guedes Barreto.” Esta carta me fez considerar, à luz da suspeição, fatos que sempre me parecem naturais. A morte repentina de meu verdadeiro pai quando eu estava no ventre de minha mãe! Que era cardíaca, era, mas que emoção matou-o? E por que teria de ser uma emoção a causa? Seis meses depois eu nasci, e mais seis meses, minha mãe casou-se com A. Lopes Dantas de Oliveira! Ele criou-me com carinho e sempre o chamei papai. Quando me contaram a verdade fiquei revoltado, eu queria ser filho de meu padrasto. Houve época em que desejei o milagre da troca de paternidade anunciado por um anjo, ou mesmo por uma traição. De tanto esperá-lo inutilmente, perdi a esperança, depois a fé. Não revivi, porém, a dúvida hamletiana que Wagner viveu. Não precisei odiar judeus. A dúvida entrou no meu espírito por via da carta de J.G.B., mas só me amargurou e durou um ano. Não foi intensa a dor. Analisei todos os aspectos, inclusive a hipótese de José Torres ter morrido ao descobrir que eu era filho do sócio... Minha mãe, concluí, podia viver sem homem mas não sem marido, e aí estava a explicação de ter-se casado novamente um ano depois da morte do primeiro marido. Quanto às promissórias, era melhor aceitar que elas tinham sido resgatadas por meu pai e que J.G.B. era devedor inadimplente. Mas se eu me satisfiz com tais explicações, por que resolvi publicar os caprichos? Inicialmente eu tinha resolvido encurtar o título original para Caprichos. Acontece que suprimi uns ligados à morte de W, substituindo-o por narrativas que descobri entre papéis velhos. A razão da supressão da supressão foi que os episódios escrito após a morte de W, e a propósito dela, deixavam transparecer certos fatos dos quais participaram pessoas ainda vivas... Em busca de um título novo, terminei fixando-me em AS TRANSPARÊNCIA IMPENETRÁVEIS, que é um dos (nem sei se posso dizer) contos de meu padrasto. A obra não vem a lume como projetada, mas publico-a assim mesmo, num preito de gratidão a meu pai. Pouco se me dá que sejam literariamente maus, como disse J.G.B. Sou grato em meu nome e no de minha falecida mãe porque estou convencido de que, de certa forma, ele se matou para nos salvar economicamente.
A firma J.Torres&Cia. não ia bem. Não devi, mas não tinha capital de giro. Há dois anos se encerrara em mutismo estranho. O carro desgovernou-se e precipitou-se no abismo, ficou sendo a versão oficial. Houve quem aventasse a hipótese de um colapso cardíaco antes de o carro sair fora da estrada. O check-up a que meu pai havia se submetido três meses antes para a renovação do seguro, enfraquece essa suposição. Estou convencido de que quando o carro começou rolar despenhadeiro abaixo, ele já devia estar morrendo. Pouco antes do desastre um amigo meu viu o carro parado no topo da ladeira. À espera de quê? Felizmente a notícia não circulou. Achei no bolso de um de seus paletós um frasco vazio de Digitalina. Ele teve o cuidado de não levar o frasco... quando o mostrei a minha mãe, ela empalideceu e exclamou admirada: “E ainda existe isso aqui? Era o remédio que José tomava...”
F.J.Torres
Sumário
As Transparências Impenetráveis. 19
Ismael da Rua Luizinho de Melo, ou o homem.. 42
cuja a vida não teve enredo. 42
Cecê, A Mulher Que se Casou com o Lobisomem.. 60
Cometa
Acabo de chegar do médico. Começo de catarata foi o que ele disse da sensação de argueiro que me afligia. Resta a esperança de que a operação seja bem-sucedida. Mas até lá, haja tempo. É lento o progresso da doença e só poderei operar-me quando duas nódoas brancas cobrirem completamente as meninas de meus olhos. Bem que poderia ter sido num olho só! Viver tanto, para isso!... Disse-me o médico que se não fosse o diabetes o caso seria tranqüilo.
Estou só com minha aposentadoria. Mulher, filho - cometas que passaram. O rapaz... Ela, cruza céus que não são meus. E agora, velha, que interesse teria? Uma companhia piedosa. Melhor assim como estão as coisas. Uma casinha, um canário, um jardim, esperanças que agonizam. Resta o consolo de que a operação ocorra antes de se passarem seis anos. "...tivesse nascido um ano antes!..." Eu já era trintão quando percebi a asneira que pensava e repetia. Nascesse em 10 não teria visto nada, e do que visse, nada teria ficado na memória. "Esse não viu, nasceu um ano depois...", diziam lá em casa, apontando para mim. A passagem do cometa deve ter marcado profundamente o espírito de meus pais. E quem sabe minha carga genética! Há teorias modernas a favor dessa hipóteses! Durante anos o cometa foi assunto na mesa e no alpendre. "...tivesse nascido um ano antes, teria visto...", parece-me ter ouvido meus pais dizerem isso. Creio que a partir desse dia adotei a frase e passei a repeti-la em meu íntimo, mordido de uma ponta de revolta por eles terem retardado de um ano minha concepção. Na verdade, seria necessário que tivessem se casado antes, e que tudo recuasse um ano. Só? Não dava. Em 10, minha mãe abortou e para ver o cometa eu não poderia ter sido o móvito. E para guardar lembrança dele deveria ter nascido antes, bem antes. Outra teria sido minha vida porque outras teriam sido minhas metas. "Dizem que vai passar de novo lá para oitenta e tantos...", diziam. Oitenta e seis, certifiquei-me depois. Era esperar, e esperar muito. Aos 10 anos eu sabia que deveria viver mais de setenta se quisesse ver o Halley na sua próxima passagem. Deveria ou teria? Como se dependesse de minha vontade! Tive medo de morrer antes da volta do cometa. Nada mais pude fazer porque, então, minha vida já era um oco. Não o tinha visto, não poderia deixar de vê-lo. Dava tempo. Era só chegar aos setenta e seis. Foi de dor o dia em que fiz essas descobertas. "...era a estrela que guiou os Reis Magos...", eu estava dizendo quando, ao tirar os olhos do além, dei com a cabeça de meu filho caída sobre o ombro, a boca aberta, o fio de baba... Não me ouvia. De esguelha vi o riso de deboche que minha mulher deixava rever pelos cantos dos olhos. Tínhamos jantado e estávamos no alpendre. Disfarcei e saí a pensar, olhando estrelas. Minha mulher não me respeitava, foi o que descobri. Doeu. Por que o desprezo? Afinal, eu era caixa de banco, funcionário por concurso, era eu quem botava a comida para dentro de casa, pagava as contas, vestia... Há quanto tempo eu vinha falando do cometa? Durante o namoro e o noivado falei muito. No início deve tê-la deslumbrando. Durante os sete anos de casado teria eu falado doutra coisa? Senti-me ridiculamente pequeno. Precisava esconder-me. "As mulheres desprezam os homens monótonos e os covardes", um amigo me tinha dito. Quando? Já fazia tempo só então eu traduzia a mensagem. Monótono e covarde! Eu disfarçara, mas o que me havia obsedado até aquele momento fora o medo de não viver setenta e seis anos. Medo de doença, de avião, de água, de fogo... Precaução era o nome bonito que eu dava ao medo. "Um homem prevenindo vale por dois", era meu lema. Nem meio eu valia. Ferrolhos e cadeados nas portas. Medo de ladrão, medo da morte. Comida magra, nenhuma manteiga, comedimento, ginástica matutina, metódica. Medo de enfarte. Não fumava, não bebia. Era preciso viver para ver o cometa em oitenta e seis. Riam de minha monotonia, era o que eu descobria atravessando o jardim, olhando estrelas. Ririam de meu segredo ridículo? "Cuidado com o cometa!" Decidi não falar mais de estrelas, planetas, nebulosas, buracos... Era preciso evitar as conversas que conduziam ao cometa. Como eu andava em dia com as coisas celestes! Esgueirei-me desconfiado em direção à calçada. Debruçado no portão, continuei refletindo. "Conversando com as estrelas?" Era meu vizinho chegando para o cafezinho, os dois dedos de prosa, o joguinho de dominó. Voltei à terra e desviei o assunto perguntando-lhe como se fora de viagem, se tinha vendido muito, enfim, puxando por todos os assuntos que dizem de perto a um caixeiro-viajante. O certo é que consegui afastar a conversa sobre estrelas, e no final, quando ele me perguntou como ia minha mulher, nem eu mesmo pensava no cometa, nem no vexame que pouco antes tanto me humilhara. Senti-me liberto como se tivesse acabado de ver o cometa. Lembranças idiotas... Nenhuma razão para não fechar o livro da vida, salvo ver o cometa! Valerá a pena esperar? Curioso! Essa mesma idiotia me permitiu atravessar a vida em pureza d'alma, sem vaidades, sem ofender ao próximo, sem usá-lo como espelho para nele ver, refletidas, minhas grandezas... Mediocridades ou santidade? Guiado por um cometa que não vi, atravessei a vida, e quando ele brilhar no céu novamente, assim estarei, mas irremediavelmente apagado...
A Briba e a Mariposa
W ficou de vir ver-me à tarde. Faz cerca de quinze dias, chegou de São Paulo, onde passou uma temporada com filhos e netos. Conheceu o Sul no ocaso da vida. Sempre nos consideramos sobreviventes de uma geração de velhos que não se conhecem, ou se cumprimentam de longe. Aliás, em nossa idade o culto da amizade não faz mais sentido. O que pedimos são preguiçosas, cadeiras de balanço e um horizonte ou uma árvore para ver. Na falta disso, uma parede branca e uma briba comendo insetos enchem essas imensas clareiras de tempo que a morte, por descuito, às vezes nos deixa, e são inúteis. Enquanto esperava concentrei-me na tela de cal onde assisti a uma briba pegar uma mariposa. Fui ao dicionário e, para minha surpresa, o termo briba não tem registro. De leitura antiga, lembro-me que H.C. usou a palavra. Fui a osga e lá nenhuma referência a briba. Aprendi, porém, que o bichinho veio da África com os escravos, nos poucos pertences que traziam. Fora terra e índio, que diabo tinha o Brasil? Milhões de coisas que julguei bens nossos de raiz, vieram de fora. Até manga! O que aprendi sobre osga pouca valia tem. Minha idade é de esquecer, não de lembrar. Há quem viva falando de saudade e netos, duas entidades que não me emocionam. Na verdade, nunca acreditei em saudade. Eis uma palavra inútil. Só o português a tem, e isso mais testemunha falta de vigor emocional do que riqueza lingüística. Fico com briba e osga. No registro, osga é cinza-brancacenta. Horrível! Ela é de cor creme-opalescente, ou cera-translúcida. Exoftálmica, demora uma eternidade fixando a caça. Sempre de cima, a cabeça para baixo, descendo. A pequena mariposa que estava a um metro dela, de repente está a meio metro! Um piscar de olhos e a distância foi engolida. Talvez seja assim a aproximação da morte. Outro piscar e estamos na boca da morte-briba. Ela engole balançando a cabeça. Creio que ainda percebi um pequeno estertor da mariposa antes de ser tragada. A osga cumpre um pequeno ritual. Engolida a presa, fica uns segundos imóvel no local. Depois, vira a cauda para um lado, a cabeça para o outro, e nova parada. Em seguida completa a manobra, e agora, com a cabeça para o alto, célere busca o refúgio sombrio das telhas. Raramente é uma só. Hoje eram duas, e uma única mariposa. A outra ficou à espera que sua mariposa pousasse. E esperando W fiquei com ela, observando-a. De repente me lembrei de Francisca, que foi empregada de minha mãe quando eu era menino. Há muito que morte-briba apanhou-a. Por que me veio a lembrança dela? Que relação entre Francisca e osga? Foi com ela que aprendi a dizer briba! À noite meu pai corrigiu para víbora. Eruditismo de semi-letrado, talvez preconceito da época. Muito tempo depois vim a saber que víbora é cobra venenosa. O povo deve ter algum parentesco com Deus: escreve certo por linhas tortas. É briba mesmo, meu pai! Ele não ouve, também está no papo da morte-briba. Depositaram-se em minha imaginação as lavras de todos os medos que, combatendo-os, gastei meia vida. Tudo começou com a história da mão cor de cera que Francisca viu descendo a parede com as osgas. Estava costurando, sentiu uma coisa, algo estranho no quarto, levantou a cabeça e viu a mão estacar, e ficar imóvel grudada à parede. Olhou-me, mediu meu pavor e acrescentou que a mão parecia estar olhando para ela. O fiapo de minha voz perguntou o que ela fez. Rezou uma reza forte e a mão sumiu-se por encanto. Nunca me ensinou a reza. Se em minha adolescência surgisse na soleira da porta a enorme perna preta em que transformei a mão, eu não saberia exorcizá-la e teria morrido, vendo-a vendo-me sorrindo-me. A partir da mão cerosa em que certamente Francisca metamorfoseou as bribas, enchi minhas noites de expectativas horríveis: pés e cadeiras andando, cabeças boiando nas salas, nos quartos e corredores, pessoas conhecidas mortas, silenciosas, sentadas nas cadeiras e sofás, deitadas nas camas, pessoas inicialmente sólidas mas que pouco a pouco iam se tornando fluidas, transparentes, até sumirem-se. Hoje esses monstros desertaram, hoje eu os veria com a mesma calma indiferença com que vejo um livro sobre a mesa. Há muito que perdi o medo da morte. Talvez por isso eles desertaram. Eu ainda estava no alpendre esperando W, olhava a osga solitária que esperava sua mariposa, quando o portão rangiu nos gonzos. É ele, eu disse, e levantei a vista buscando-o. Não era. W acabara de morrer. Certamente enfarte. Senti que o território de minha solidão acabara de anexar novas terras, tornara-se imenso. Voltei a sentar-me. A outra briba não estava mais lá. Fixei-me na cadeira defronte, na qual W deveria estar, silencioso, pois fazia muito que não tínhamos o que nos dizer, tudo já havia sido conversado. Fiquei tempo sem fim olhando o assento vazio. Súbito vi W sentado, fumando seu cigarro, olhando além, como fazia. Sei que eu disse: “Você está morto, W!”Um túmulo encerrará os restos mortais dele, e minha memória, enquanto a morte-briba não chega, os restos espirituais. Como é grande a solidão, e longa a vida!

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